CUIABÁ (MT) — Uma fala do prefeito Abílio Brunini durante reunião interna com servidores da Saúde caiu como gasolina no fogo político da capital. Em áudio gravado no dia 22 de outubro de 2025, o gestor afirmou que “torce para que as servidoras não engravidem todas ao mesmo tempo”, em meio a um debate sobre o pagamento de adicional de insalubridade e do chamado Prêmio Saúde a servidoras em licença-maternidade.
A declaração veio à tona após o áudio ser obtido pelo UOL e repercutido nacionalmente, gerando críticas, reação de sindicatos e um esforço imediato da Prefeitura para conter o desgaste.
Áudio:
Segundo o contexto da gravação, a discussão girava em torno de um problema antigo: servidoras da Saúde que, ao engravidarem ou entrarem em licença-maternidade, perdem parte significativa da renda, justamente por ficarem sem adicionais e gratificações. No meio do embate, Abílio subiu o tom e também disparou críticas ao que chamou de resistência a melhorias estruturais.
“O que está parecendo é que todo mundo quer trabalhar no local insalubre. ‘Não vamos melhorar a saúde porque, se melhorar, eu vou ganhar menos’”, disse o prefeito no áudio.
A frase que virou munição
Mas foi outra fala que virou o centro da crise:
“Nós vamos abrir outro lugar para transferir. Só torço para que nem todas as mulheres engravidem ao mesmo tempo.”
A frase correu rápido, ganhou manchetes e passou a ser interpretada como ofensiva e insensível. A gestão reagiu afirmando que o trecho foi retirado de contexto e usado politicamente.
Prefeitura diz que objetivo era proteger gestantes
Em nota oficial, a Prefeitura de Cuiabá afirmou que a reunião tinha como foco criar um auxílio gestante, justamente para evitar prejuízos financeiros às servidoras durante a licença-maternidade. Segundo a gestão, o impacto social da medida é maior do que qualquer custo financeiro e não existe, na prática, risco de afastamento simultâneo de gestantes que inviabilize o serviço público.
Antes mesmo da reunião, no dia 16 de outubro, Abílio havia sancionado uma lei complementar prevendo apenas o afastamento de gestantes e lactantes de ambientes insalubres, com realocação em locais salubres. O texto, porém, não garantia a manutenção integral da remuneração.
Dois dias após a polêmica reunião, veio o recuo técnico: em 24 de outubro, o prefeito sancionou a Lei Complementar nº 580/2025, que passou a garantir que servidoras gestantes e lactantes afastadas continuem recebendo o adicional de insalubridade, calculado pela média dos últimos três meses, com efeitos retroativos. A norma também alterou regras do Prêmio Saúde e de gratificações da área.
A Prefeitura ainda anunciou que pretende enviar à Câmara Municipal um novo projeto de lei, ampliando a proteção: a proposta prevê a manutenção da renda das servidoras gestantes com base na média dos últimos 12 meses, incluindo benefícios, alcançando tanto servidoras efetivas quanto comissionadas, também com possibilidade de retroatividade.
Para a gestão, a fala virou ruído. Para críticos, foi reveladora. No meio disso tudo, o fato é um só: a frase existe, o áudio é real, e o desgaste político também. A tentativa de correção veio em forma de lei, mas o episódio expôs a dificuldade do prefeito em tratar temas sensíveis sem criar tempestade.
Na política, especialmente quando envolve mulheres, maternidade e direitos trabalhistas, palavra mal colocada vira crise instalada. E, em Cuiabá, a frase ainda vai ecoar por muito tempo com ou sem contextualização.



























