Quatro pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público Federal (MPF), nessa quarta-feira (8), suspeitas de integrarem um esquema criminoso de fornecimento de combustível para garimpo ilegal na Terra Indígena Sararé, em Mato Grosso. O caso é um desdobramento da Operação Última Gota, deflagrada em fevereiro.
Segundo as investigações, uma fazenda era usada como ponto clandestino de abastecimento. No local, fiscais encontraram um tanque com capacidade para 15 mil litros de diesel e estrutura semelhante à de um posto, que atendia garimpeiros com livre acesso. O transporte de galões de combustível passavam por uma estrada que ligava a propriedade às áreas de extração ilegal.
De acordo com o MPF, o grupo comprava diesel de forma fracionada para tentar driblar a fiscalização da Agência Nacional do Petróleo (ANP). As transações eram feitas em nome de terceiros para ocultar o responsável pelo esquema. Em um mês, foram adquiridos cerca de 260 mil litros de diesel, volume considerado incompatível com a atividade rural declarada.
A denúncia aponta que, entre setembro de 2023 e fevereiro de 2026, os suspeitos movimentaram cerca de 5 milhões de litros de diesel, o que gerou mais de R$ 26 milhões. O MPF afirma que o grupo atuava de forma organizada, com divisão de funções.
Os investigados foram denunciados por associação criminosa, usurpação de patrimônio da União, extração ilegal de recursos minerais com dano ambiental, além de armazenamento e comercialização de substância perigosa e posse irregular de arma de fogo.
A Justiça Federal já aceitou parte da denúncia e autorizou o andamento da ação penal para crimes ambientais, patrimoniais e de associação criminosa.
Durante a operação, três prisões preventivas foram decretadas, sendo duas cumpridas. O apontado como líder do esquema chegou a ser preso, mas foi solto após decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, que concedeu habeas corpus e substituiu a prisão por medidas cautelares. Um dos réus segue preso, e outro está foragido.
Denúncia
Uma indígena da etnia Nambikwara Katitaurlu fez uma denúncia e relatou à TV Centro América que a presença do garimpo ilegal e chegada da facção criminosa Comando Vermelho nos últimos três anos trouxeram bebedeira e matança na Terra Indígena Sararé.
“Eu quero ficar em paz na aldeia. Tem um rapaz que vende drogas, bebidas. Ele trouxe para aldeia e vai matando o próprio indígena. Eu estou sempre lutando, quando eu ando sozinha eu falo que não pode ficar vendendo. Quando ele fica bêbado pode matar a própria esposa. Eu sempre falo que estou de olho, na saída da aldeia. Eu quero que acabe com tudo [com garimpo]”, contou.
Em outubro do ano passado, a filha do cacique Tainá Katitaurlu, de 37 anos, explicou ao g1 que o garimpo destrói a medicação natural ao desmatar a região, além de afastar e matar os animais nas florestas, que costumam ser caçados pelos indígenas para alimentarem a comunidade. Desde a chegada dos garimpeiros, o consumo de proteína animal caiu significativamente na aldeia.
Por ser próxima da fronteira com a Bolívia, a região se tornou uma das rotas mais usadas para o tráfico de drogas, segundo a Polícia CiviI. A partir de 2022, grupos criminosos se infiltraram na região e, em 2024, entraram no garimpo, sendo que parte deles são investigados pela destruição provocada na Terra Indígena Yanomami, em Roraima.
Além disso, o governo tem até março deste ano para apresentar um plano de ação para expulsar completamente os invasores do território.
Paralelo a isso, uma operação integrada entre as forças de segurança foi deflagrada em 1º de agosto do ano passado e já destruiu 150 escavadeiras hidráulicas e causou prejuízo de mais de R$ 226 milhões ao garimpo ilegal na região, segundo o Ministério dos Povos Indígenas.
De acordo com as investigações, o grupo teria adquirido mais de 4 milhões de litros de diesel em 21 meses. O material recolhido será analisado para identificar outros possíveis envolvidos.



























