RONDONÓPOLIS (MT) — O trânsito mais letal de Mato Grosso virou palanque na Câmara. Em menos de uma semana, o vereador Marisvaldo (Republicanos) emendou duas falas que batem de frente com dados técnicos e com o próprio Código de Trânsito Brasileiro.
Primeiro, criticou a instalação de radares na Rua Dom Pedro II, mesmo a via sendo a 6ª com mais acidentes da cidade. Depois, partiu pra cima de agentes de trânsito por autuarem carros estacionados em calçadas no entorno do Hospital Regional, prática proibida e perigosa para pedestres.
Na tribuna, Marisvaldo disse que “não vê acidente fatal suficiente” na Dom Pedro II para justificar fiscalização eletrônica e sugeriu que trabalhador estaria sendo forçado a “trabalhar pra pagar multa”.
O problema é que os números mostram o contrário: a via concentra alto fluxo, histórico de sinistros e atropelamentos. Em engenharia de tráfego, radar não entra só onde já morreu gente. Entra onde o risco é recorrente.
Dias depois, o vereador elevou o tom contra agentes que notificavam e guinchavam veículos parados sobre calçadas no Hospital Regional. Em vez de defender o pedestre, atacou a fiscalização e cobrou que não se multe quem “está trabalhando”, insinuando que autuação seria abuso.
A fala, na prática, passa pano para infração clara do CTB e tenta constranger servidores a afrouxar a lei. Estacionar em calçada não é detalhe. É infração grave que bloqueia a passagem de cadeirantes, idosos, mães com carrinho e pacientes.
O efeito combinado das duas posições é deslegitimar radar onde há risco e desacreditar agente que aplica a lei. O recado que ecoa na rua é perigoso: regra vira opinião, dado vira achismo e infração vira “perseguição”.
Em uma cidade que fechou o ano de 2025 com altas de mortes no trânsito o discurso que relativiza fiscalização não é só polêmico. É irresponsável.
Radar existe porque há conflito entre carro e gente. Calçada existe para gente, não para carro. Quando autoridade sugere o contrário, não é defesa do trabalhador. É incentivo à bagunça viária.
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