CUIABÁ (MT) — O Réveillon pago com dinheiro público em Cuiabá ganhou um novo nome não oficial: Culto da Virada. A programação anunciada pela Prefeitura de Cuiabá para a chegada de 2026 trocou a diversidade cultural por um pacote fechado de louvor, oração e pregação, com direito a palco, LED gigante e contagem regressiva abençoada. Réveillon laico? Só no discurso.
No lineup, praticamente 100% gospel. As únicas exceções são a Rosa de Saron e Banda Gaudium (católicas), que ainda assim também é religiosa. O resto segue a mesma trilha sonora celestial: Fernanda Brum, Samuel Eleotério, Banda Os Bençãos, Bruno Cerqueira e DJ Pedrinho. Diversidade musical? Só se for de tom de oração.
A Prefeitura chama de “Réveillon da Família”. Traduzindo: da família que concorda. Cuiabá é plural, barulhenta, cheia de ritmos, culturas e crenças. Mas o palco público resolveu pregar para convertidos e mandar o resto procurar outra praça. Quem gosta de samba, sertanejo, pop, regional, eletrônico, cultura popular ou simplesmente de não rezar em evento oficial ficou sem opção, pagando a conta do mesmo jeito.
E não para por aí. A virada terá momento de oração conduzido por apresentadores, com possíveis falas de autoridades. Ou seja, o Estado sobe no púlpito, segura o microfone e diz “amém”. Laicidade virou figurante, diversidade virou nota de rodapé.
Estrutura tem. Acessibilidade tem. Segurança tem. Coragem cultural, não. O prefeito escolheu agradar um público específico e chamou isso de evento para todos. É como servir um prato único e dizer que o buffet é variado.
Prefeito Abílio, palco público não é altar exclusivo. Fé se respeita; imposição se questiona. Réveillon municipal não é culto, não é retiro e não é comício espiritual. É celebração coletiva. Do jeito que foi montado, a virada em Cuiabá não foi da cidade, foi de um grupo. E quando o relógio marcar meia-noite, o foguetório pode até ser silencioso, mas a exclusão vai fazer barulho o ano inteiro.
























