No meio da tragédia tinha um dilema.

No meio da tragédia tinha um dilema.

Um ano após considerar salvar a economia, como se isso representasse um dilema que pudesse ser colocado diante da vida de milhões de brasileiros, o governo federal não tomou as rédeas do combate a covid-19. Como resultado vieram as mais de 330 mil mortes, seguidas do caos sanitário, social e econômico. Em suma, nada se salvou a partir dessa decisão.

Diante desse abismo, cujo a profundidade só aumenta com o número de mortos, vamos seguindo na contramão do mundo com relação as medidas de contenção da pandemia. Para termos ideia do tamanho dessa tragédia, o número de mortes é equivalente as populações de Rondonópolis, Jaciara e Primavera do Leste, somadas.

Dados recentes e divulgados pela Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional), informam que a fome atingiu 19 milhões de brasileiros e a insegurança alimentar já atinge 116,8 milhões de pessoas. Isso corresponde a 55,2% dos domicílios. Essa pesquisa foi realizada em dezembro de 2020, ao final do pacote de auxílio emergencial de até 1200 reais e sem o reflexo dos valores reduzidos que já estão em vigor.

Esses dados servem para nos trazer uma reflexão sobre aquilo que é evidente, mas precisa ser dito: não existe a menor possibilidade de salvar a economia sem salvar as pessoas. A prova maior disso é que várias economias do mundo tiveram queda no PIB depois do início da pandemia. No entanto, aqueles que tomaram todas as medidas necessárias para evitar o colapso sanitário e social, tiveram quedas menos acentuadas e com menor necessidade de recorrer a medidas muito restritivas.

Cito como exemplo a Inglaterra, que ao começo da pandemia trabalhou a ideia de “imunidade de rebanho”, tendo inclusive o seu primeiro-ministro Boris Jonhson, sendo levado a UTI por conta do coronavírus. Isso foi o suficiente para que após sua recuperação, ele mudasse a forma negacionista como vinha tratando o vírus. Desde então foram criados programas de auxílio para garantir a efetividade dos “loockdowns”. Hoje, além de garantir auxílio a pequenas e grandes empresas através de programas de redução de jornada, também foi aprovado um subsídio para autônomos no valor de até 2.500 libras (pouco mais de 15 mil reais), que atinge até 95% desse grupo. Isso permite que as pessoas fiquem na segurança de suas casas durante o “loockdown”, enquanto o governo põe em prática o seu programa de vacinação, que se encontra em estágio mais avançado na Europa.

Sendo assim é necessário afirmar que a Inglaterra é berço do liberalismo econômico, e que isso não implica no abandono de sua população a própria sorte. Trazer essas informações ao debate público brasileiro é imprescindível para apontar as contradições de um governo que vê “comunismo” em qualquer ação do estado para garantir o mínimo de bem-estar social da sua população, enquanto a economia sucumbe sob a égide de programas econômicos austeros, fazendo com que pequenas e médias empresas fechem no mesmo ritmo em que as mortes pela covid-19 são anunciadas. Esse mesmo programa econômico é responsável pelo teto de gastos que implode o sistema público de saúde no momento em que os brasileiros mais precisam.

Ao lançar luz sobre esse debate, ficou claro que ao escolher o falso dilema da salvação – saúde ou economia – o governo brasileiro mergulhou sua população nas estatísticas macabras que compõe esse texto, além de tornar o país um laboratório a céu aberto para a criação de novas variantes do coronavírus. O discurso econômico liberal não se aplica a realidade material de sua população e o genocídio em massa segue levando a vida de mais de 3 mil brasileiros diariamente.

* Kleison Teixeira é formado em ciências políticas, vice-presidente do PSOL e foi candidato e prefeito de Rondonópolis pelo partido.

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