Ser gaúcho é muito mais que nascer no Rio Grande do Sul, usar pilcha e sorver chimarrão

ser ou naoSer gaúcho é sentir o arrepiar dos pelos do braço logo aos primeiros acordes do Hino Rio-grandense que, em sua mensagem, faz reviver os heróis de uma época, na luta, com doação do próprio sangue, para dignificar este pedaço sagrado de chão, pela devoção daqueles que empunharam lanças, adagas e espingardas, no enfrentamento com o poderio de tropas imperiais adestradas para a guerra, e que, diante dessa disposição, mostraram, por longos dez anos, que venderiam muito caro uma derrota;

Ser gaúcho é lembrar que o movimento farrapo, nascido dentro do peito de cada um dos seus integrantes, uniu patrões e peões, homens e mulheres, ricos e pobres na certeza de que estava em jogo muito mais do que uma simples vontade de mostrar ao poderoso império que nossa gente não estava satisfeita com o tratamento que recebia da coroa. Havia no bojo das reivindicações um pensamento abolicionista, de igualdade entre os homens e de plena liberdade de pensamento;

Ser gaúcho é sentir na bandeira de três cores a manta que aquece o coração no rigor do minuano e que juntamente como o fogo de chão e o chimarrão faz sentir apego a esta querência, com a certeza de que, ao sair, a saudade se tornará companheira inseparável;

Ser gaúcho é sentir necessidade de estender o braço e confraternizar com aquele que está ao nosso lado, na certeza de que “o patrão velho lá de riba” nos quer irmãos, defendendo a mesma causa, embora possamos divergir na maneira de fazê-lo, pois importante é trabalhar no sentimento de fazer crescer esta terra; de fazer brotar da terra ou buscar no oceano e no campo o alimento para ser dividido entre todos, como Cristo um dia fez, com o seu rebanho;

Ser gaúcho é um estado de espírito, de lealdade, capaz de mostrar aos demais povos que sabemos ser humildes e que aceitamos todos como iguais, mas que também sabemos falar no mesmo tom de voz, aos que possam tentar intimidar, quando isso se fizer necessário, para mostrar que respeitamos, mas não temos medo de enfrentamento, especialmente quando querem alijar o sentimento que se apega àquele que aprende amar as raízes e tradições deste Estado;

Ser gaúcho é, finalmente, abraçar com “quebra costelas” os que aqui chegam para se unir e participar do nosso sistema e das nossas tradições. Serão sempre irmãos que chegam e para os quais repassamos a cuia, na prova de paz e do querer bem.

Essa é a razão de encontrarmos, em todos os cantos deste Brasil, um pedacinho do Rio Grande, através de um galpão crioulo, uma cuia e uma bomba, selando amizades e fortalecendo a certeza de que, aqui, no fim do mapa, existe uma querência que propaga o verde-e-amarelo, que se liga ao vermelho, cuja cor, nos faz iguais aos quero-queros, nascidos para guardião do extremo sul.

Por Moacir Rodrigues